A costa amazônica e eu
Em novembro passado, os olhos do mundo se voltaram para o Pará, Brasil, quando os líderes globais se reuniram em Belém para a 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30). Para mim, o Pará é mais do que o estado anfitrião da COP30; é minha casa. É o coração da Amazônia, o coração da identidade, cultura e força de nosso povo.
Nasci e cresci em Curuçá, um município costeiro situado entre a floresta amazônica e longos manguezais, onde o ritmo do rio define o ritmo de nossas vidas. Curuçá foi onde construí meus sonhos e aprendi os valores da simplicidade, fé e trabalho árduo — valores que guiam minha vida e meu papel como prefeito hoje.
Lembro-me vividamente das tardes em Porto Grande, na minha comunidade de Nazaré do Tijoca, onde, quando criança, acompanhava meus pais e amigos pelos rios e manguezais para pescar e coletar caranguejos. Não se tratava apenas de sustento — era uma época de união, aprendizado e respeito pela natureza. Essas memórias alimentam minha profunda conexão com esta terra e impulsionam minha luta por sua preservação.
Para mim e meu povo, nossos manguezais, estuários e oceanos não são abstratos. Eles alimentam nossas famílias, moldam nossa cultura e impedem a subida das marés. Eles são a linha de frente da crise climática e onde eu aprendi o verdadeiro significado da resiliência.

Os desafios que enfrentamos
Ao longo das décadas, observei nosso ambiente mudar significativamente. As marés e o clima não seguem mais os mesmos padrões, e certas espécies de peixes, caranguejos e camarões diminuíram notavelmente. A erosão corrói nosso litoral, enquanto a elevação do mar ameaça nossos manguezais e bacias hidrográficas.
Essas mudanças, por sua vez, ameaçam os meios de subsistência daqueles que dependem mais diretamente da natureza. Pescadores, coletores de caranguejos e marisqueiros lutam com menos capturas e precisam procurar formas alternativas de ganhar a vida. Os agricultores também devem se adaptar às mudanças das estações. Isso não afeta apenas nossa economia local, mas também as tradições de famílias que dependem desses ecossistemas costeiros há gerações.
E não estamos sozinhos. Em todo o Pará e em comunidades costeiras em todo o mundo, de Moçambique a Palau, famílias como as de Curuçá estão vivenciando realidades semelhantes. A mudança climática não é mais uma ameaça distante: está aqui, remodelando nossas costas, nossa cultura e nosso futuro.
Mas há esperança
No entanto, mesmo diante desses desafios, tenho esperança. Em Curuçá, temos jovens líderes, mulheres e associações de produtores locais preservando nossos ecossistemas costeiros por meio do cultivo de ostras, turismo sustentável e contribuições para o manejo eficaz dos manguezais locais, incluindo aqueles dentro de nossa reserva. Essas ações podem parecer pequenas em comparação com a escala da crise climática, mas são importantes. Cada mangue protegido, cada prática sustentável avançada e cada jovem engajado é um passo em direção à resiliência.
Também me sinto encorajado pelo que vejo além de nossas costas. Por meio da rede Coastal 500, conheci prefeitos e líderes locais de todo o mundo que enfrentam desafios semelhantes com coragem e criatividade. Na Conferência Oceânica das Nações Unidas e no Fórum de Líderes Locais da COP30, ouvi histórias de como aldeias costeiras na Indonésia, Filipinas e Honduras estão reagindo, protegendo os recifes de coral, restaurando a pesca e exigindo um assento na mesa dos fóruns globais. Saber que nossas lutas e soluções nos conectam é uma fonte contínua de inspiração.

Meu apelo à ação para líderes locais
Mais do que qualquer COP anterior, a COP30 foi moldada pelas comunidades da linha de frente que conhecem melhor esses desafios. Povos indígenas, comunidades locais, pescadores, agricultores, sociedade civil e governos locais fizeram suas vozes serem ouvidas, ajudando a transformar isso em uma COP Popular. Além das salas de negociação, a Coastal 500 e muitos parceiros promoveram uma Agenda Global de Ação Climática, inédita, demonstrando ao mundo o que já sabemos em lugares como Curuçá: as soluções estão aqui, as comunidades estão agindo e o progresso acelera quando trabalhamos juntos.
Mas mesmo com esse impulso, a COP30 ficou aquém dos compromissos que mais importam para o nosso futuro. Ainda não temos um caminho claro para abandonar os combustíveis fósseis, reverter o desmatamento e reconhecer totalmente o oceano como um componente chave na ação climática. Essas não são pequenas omissões e terão um impacto duradouro em nossas comunidades.
Enquanto os líderes mundiais refletem sobre seu tempo em Belém, peço que se lembrem de que a Amazônia é mais do que uma floresta tropical. São suas costas, rios, manguezais e os milhões de pessoas que a chamam de lar e cujo destino está profundamente entrelaçado com a região. Se falharmos em agir com urgência e justiça, comunidades como a minha pagarão o preço mais alto.
No entanto, não somos vítimas; somos os guardiões mais ferozes do nosso território. Os povos costeiros da Amazônia já estão se adaptando, restaurando, cultivando e defendendo sua casa. Apoiar e elevar nossa liderança é crucial para preservar a Amazônia em benefício de todo o mundo.
Agora que as negociações terminaram, o verdadeiro trabalho começa. Mostramos o que é possível. É hora de os líderes globais igualarem nossa determinação e transformarem a reflexão em ação, para que a maré crescente eleve não apenas nossas esperanças, mas nosso futuro.
A maré está subindo — e nós também
O litoral amazônico e eu
Neste último mês de novembro, os olhos do mundo se voltaram para o Pará, Brasil, enquanto líderes globais se reuniram em Belém para a 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30). Para mim, o Pará é muito mais que o estado-sede da COP30. O Pará é meu lar. É o coração da Amazônia. É identidade, cultura e a força do nosso povo.
Nasci e cresci em Curuçá, um município costeiro situado entre a floresta amazônica e extensos manguezais, onde o ritmo do rio ditava o ritmo das nossas vidas. Curuçá é onde construí meus sonhos e aprendi os valores da simplicidade, fé e trabalho — que hoje guiam a minha vida e a minha gestão como prefeito.
Lembro muito das tardes no Porto Grande, na minha comunidade Nazaré do Tijoca, onde acompanhava meus pais e amigos pelos rios e manguezais e íamos pescar e colher caranguejo, além de outros frutos do mar. Era mais do que sustento. Era convivência, aprendizado e respeito pela natureza. Essas memórias alimentam, até hoje, minha conexão profunda com este território e motivam minha luta por sua preservação. Para mim e para o meu povo, nossos manguezais, estuários e oceanos não são algo abstrato. Eles alimentam nossas famílias, moldam nossa cultura e seguram as marés que insistem em subir. São a linha de frente da crise climática e o lugar onde aprendi o verdadeiro significado de resiliência.
O desafio que enfrentamos
Ao longo das décadas, observo nosso meio ambiente mudar significativamente. As marés e o clima já não seguem os mesmos padrões, e há uma diminuição perceptível em certas espécies de peixes, caranguejos e camarões. A erosão corrói nossa linha costeira, enquanto a elevação do nível do mar ameaça nossos manguezais e bacias hidrográficas.
Essas mudanças, por sua vez, ameaçam os meios de vida locais, pois pescadores, catadores de caranguejo e marisqueiras precisam lidar com a redução das capturas e buscar outras formas de sustento. Os agricultores também precisam se adaptar às mudanças das estações. Os mais vulneráveis entre nós — aqueles que dependem diretamente da natureza — são os mais afetados. Isso mexe não só com a economia local, mas também com a cultura e a tradição das famílias, que dependem do mangue e do rio há gerações.
E não estamos sozinhos. Em todo o Pará e em comunidades costeiras de todo o mundo, de Moçambique a Palau, famílias como as de Curuçá vivem realidades semelhantes. As mudanças climáticas deixaram de ser uma ameaça distante: elas estão aqui, redesenhando nossas costas, nossa cultura e o nosso futuro.
Mas há esperança
Mesmo diante desses desafios, estou esperançoso. Em Curuçá, temos jovens, mulheres e associações, como, por exemplo, a Associação Aquavila de Lauro Sodré, que estão conservando nossos ecossistemas costeiros por meio do cultivo de ostras, do turismo sustentável e da contribuição para o. Podem parecer ações pequenas diante da escala da crise climática, mas elas têm importância. Cada manguezal protegido, cada prática sustentável fortalecida e cada jovem engajado representam um passo em direção à resiliência.
Também me inspiro no que vejo além das nossas fronteiras. Por meio da rede Coastal 500, conheci prefeitos e líderes de todo o mundo que enfrentam desafios semelhantes com coragem e criatividade. Na Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos, no Fórum de Líderes Locais e na COP30, ouvi histórias de como vilas costeiras na Indonésia, nas Filipinas e em Honduras estão reagindo — protegendo recifes de corais, restaurando pescarias e exigindo um lugar à mesa dos fóruns globais. Saber que nossas lutas e soluções se conectam é uma fonte contínua de inspiração.
Mau chamado à ação para os líderes globais
Mais do que em qualquer COP anterior, a COP30 foi moldada pelas comunidades da linha de frente, que conhecem esses desafios melhor do que ninguém. Povos indígenas, comunidades locais, pescadores, agricultores, sociedade civil e governos locais fizeram suas vozes ecoar, ajudando a transformar esta COP na COP do Povo.
Fora das salas de negociação, a Coastal 500 e muitos parceiros avançaram em uma Agenda Global de Ação Climática inédita, demonstrando ao mundo o que já sabemos em lugares como Curuçá: as soluções estão aqui, as comunidades estão agindo e o progresso acelera quando trabalhamos juntos.
Mas, mesmo com esse avanço, a COP30 deixou lacunas importantes. Ainda não temos um caminho claro para a transição para longe dos combustíveis fósseis, para reverter o desmatamento e para reconhecer plenamente o oceano como componente fundamental da ação climática. Não são comissões pequenas — e elas terão impacto duradouro em nossas comunidades.
À medida que os líderes mundiais refletem sobre seu tempo em Belém, peço que se lembrem de que a Amazônia é mais do que sua floresta. Ela também é suas costas, rios, manguezais e estuários e os milhões de pessoas que aqui vivem e cujo destino está profundamente entrelaçado com esta região. Se falharmos em agir com urgência e justiça, comunidades como a minha pagarão o preço mais alto.
Ainda assim, não somos vítimas; somos os guardiões mais dedicados do nosso território. Os povos costeiros da Amazônia já estão se adaptando, restaurando, cultivando e defendendo seu lar. Apoiar e fortalecer nossa liderança é garantir a preservação da Amazônia para o mundo inteiro.
Agora que as negociações terminaram, começa o trabalho real. Já mostramos o que é possível. É hora de os líderes globais corresponderem à nossa determinação e transformarem reflexão em ação — para que a maré que sobe eleve não apenas nossas esperanças, mas o nosso futuro.





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